Queda do Produto Interno Bruto, impactos na saúde, redução da qualidade de vida e migração. Essas serão algumas das conseqüências do aumento da temperatura global na região Nordeste do Brasil, segundo revela o estudo “Mudanças Climáticas, Migrações e Saúde: Cenários para o Nordeste Brasileiro, 2000-2050”, divulgado hoje (dia 26), em Fortaleza, durante a I Conferência Regional sobre Mudanças Climáticas e Implicações para o Nordeste, promovida pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), em parceria com o Banco do Nordeste do Brasil.
Produzido por uma equipe de pesquisadores do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e do Centro de Pesquisas René Rachou – Labes, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o trabalho tem como base o quarto relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, sigla em inglês).
A pesquisa mapeou conseqüências sociais e econômicas das mudanças climáticas sobre a região Nordeste do país, indicando como o novo clima poderá influenciar o movimento migratório das populações nordestinas, que vão precisar se adaptar às novas condições climáticas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do Nordeste em 2007 era de 51,5 milhões de habitantes.
Tendo como base o cenário A2, o mais pessimista do IPCC, o que se prevê é o aumento médio na temperatura do Nordeste em 4 graus celsius e queda de 11,4% no Produto Interno Bruto (PIB) da região em 2050, o que corresponderá a dois anos sem crescimento econômico, em decorrência somente do impacto negativo nas atividades agropecuárias. Os estados do Ceará, Paraíba, Piauí e Pernambuco terão suas áreas agricultáveis reduzidas em mais de 50%. Essas e outras razões indicadas pela pesquisa farão a população se deslocar para outras regiões do país, em busca de trabalho em setores da economia menos afetados pelas mudanças climáticas e de qualidade de vida.
Enquanto o cenário A2 indica uma saída mais intensa de população do Nordeste especialmente a partir de 2035, o cenário B2 aponta para um processo modesto de perda populacional devido à migração.
De acordo com o estudo, o fluxo migratório na região Nordeste por conta dos choques climáticos previstos no Cenário A2 será, a partir de 2035, superior ao projetado pela tendência demográfica na região. Ou seja, sem os impactos das mudanças climáticas, ocorreria uma taxa líquida de migração de -0,29%, ou cerca de 200 mil pessoas nos períodos de 2035-2040 e 2045-2050.
No entanto, segundo o estudo, o processo de emigração deve ser maior (cerca do dobro ou mais que o previsto no cenário tendencial) a partir das regiões metropolitanas do Recife e de João Pessoa e da cidade de Teresina. Outros processos migratórios importantes (com volume de migração próximo ao cenário tendencial) serão verificados nas regiões metropolitanas de São Luís, Salvador e Natal.
Os dados indicam uma perda total de quase 250 mil habitantes entre 2035 e 2040, o que representa uma taxa líquida de migração de -0,36%. A partir daí, a migração diminui ligeiramente seu ritmo, atingindo uma perda de 236 mil pessoas no período de 2045-2050 (-0,34%).
As áreas mais atingidas pelos impactos negativos sobre a atividade agrícola se concentram nos estados do Ceará (-79,6%), Piauí (-70,1%), Paraíba (-66,6%) e Pernambuco (-64,9%), com queda significativa no PIB. No Ceará, por exemplo, haverá queda de 16,4% da atividade econômica; no Piauí, de 17,5%; na Paraíba, de 17,7%; e em Pernambuco, de 18,6%). Sergipe terá a menor queda (3,6%) do PIB entre os nove estados da região, segundo a modelagem baseada nas previsões do cenário A2 do IPCC.
Os resultados produzidos por esta pesquisa científica serão fundamentais para que os formuladores de políticas públicas tracem rotas de adaptação ou mitigação para as populações do Semi-Árido.
Indicadores de saúde
A mudança no clima no Nordeste vai afetar também a saúde. Outra contribuição do estudo apresentado é a construção do Índice Geral de Vulnerabilidade (IGV), uma ferramenta desenvolvida pela Fundação Oswaldo Cruz, que mostra que os estados do Ceará e de Pernambuco são os mais suscetíveis à mudança climática do ponto de vista dos indicadores de saúde. Para a construção desse índice, foram levados em consideração vários critérios.
Entraram no cálculo os dados estimados para doença de Chagas, dengue, leishmaniose tegumentar e visceral, leptospirose e esquistossomose, além de dois indicadores da qualidade da saúde infantil: mortalidade por diarréia e desnutrição. O cálculo considerou ainda o risco de desertificação, a vulnerabilidade econômico-demográfica e o tamanho da conta na área de saúde que cada estado vai ter que pagar.
No caso dos estados mais afetados, o Ceará, por exemplo, em 2030, deverá estar gastando R$ 149,6 milhões a mais em seus hospitais por causa do aquecimento da temperatura, dentro de um gasto hospitalar total previsto de R$ 295,9 milhões. Em Pernambuco, dentro de um gasto total, também para 2030, de R$ 313,3 milhões, o clima deve aumentar essa conta em R$ 91,7 milhões.
Apesar de a migração por causa do clima ter impacto na saúde do Nordeste, o peso maior na mudança na estrutura da população será o da queda da fecundidade e da mortalidade. Com o envelhecimento relativo da população, tanto os gastos com internações hospitalares quanto com atendimento ambulatorial deverão crescer quase 50% no período 2000-2040. Em 2040, a despesa atingiria R$ 4,35 bilhões, ou seja, R$ 1,43 bilhão a mais do que o gasto de 2005.
NOTA SOBRE METODOLOGIA
Do ponto de vista metodológico, o estudo está alicerçado sobre quatro componentes fundamentais:
• Construção de um modelo demográfico básico que engloba os comportamentos previstos de fecundidade, mortalidade e migração da população não apenas do Nordeste como de todo o Brasil.
• Incorporação dos efeitos das variáveis econômicas ao panorama demográfico. A migração em busca de trabalho é uma força motriz importante que redefine o espalhamento das populações.
• Incorporação ao mapa demográfico e aos conceitos econômicos os cenários de mudanças climáticas. Basicamente, a investigação feita capta a interferência do aumento da temperatura sobre o setor primário da economia (agricultura e pecuária).
• Questão da saúde - a partir da construção do IVG (Índice de Vulnerabilidade Geral) é possível quantificar a vulnerabilidade nordestina em nível regional. A montagem do IVG é feita a partir de quatro subindicadores, o IVS (Índice de Vulnerabilidade de Saúde), o IVD (Índice de Vulnerabilidade à Desertificação), o IVED (Índice de Vulnerabilidade Econômico-Demográfico) e o IVC (Índice de Vulnerabilidade de Custo do Sistema Único de Saúde). O estudo avaliou o comportamento futuro das despesas hospitalares e ambulatoriais do sistema público frente às mudanças que deverão ocorrer na região entre os anos de 2000 e 2040, decorrentes das variações nas temperaturas da região.
• O estudo teve por base os cenários climáticos desenvolvidos pelo CTPC/Inpe (Centro de Previsão de Estudos Climáticos/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e os cenários agrícolas desenvolvidos pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas e Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).